Sempre estive tão perto e tão longe de você. Se durante todos esses anos meu revólver esteve carregado de palavras chulas ao dirigir-me à você, agora sinto uma imensa vontade de carregá-lo com balas verdadeiras e atirar contra meu próprio coração. Agora estou vivendo tudo o que eu desejei para você, pai. Sofro de uma maneira inexplicável. Um oceano de pura culpa toma tudo o que resta em mim e sai pelos meus olhos compulsivamente.
Pai, ouça-me, por favor! Sei que você não teve culpa por aquele acidente no qual mamãe nos deixou. Eu fui infantil, eu fui infantil, infantil... infantil. Minha mente ignorante só percebeu isso agora, pai... mas agora isso já não importa. Nada nesse mundo vai apagar todas as vezes em que te chamei de assassino e cuspi toda aquela fúria sobre ti.
Se, ao menos, eu tivesse mais uma chance para te dizer tudo o que sempre esteve trancado dentro de mim, eu me ajoelharia sobre seus pés e imploraria por seu perdão... as lágrimas sobre meu rosto seriam tantas que as que o cobrem nesse momento não passariam de gotas invisíveis. E você, tirando seus óculos e respirando fundo, sorriria para mim lá de cima, esticando seus braços para que eu pudesse me levantar. Meus olhos, então, se voltariam para sua imagem e você me olharia de volta, afirmando que o passado estaria apagado de uma vez por todas e que estaríamos juntos como nunca pudermos estar.
Mas eu estou aqui, pai, sentada nesse meio-fio sujo, chorando como nunca chorei antes. Todas as pessoas que por aqui passam me olham curiosas, como se devessem saber sobre o que se passa dentro do meu coração. Oh, mas elas saberão. Saberão amanhã, quando eu virar notícia de jornal por, simplesmente, tentar unir-me ao meu herói e bandido.
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Texto inspirado por:
Manie.

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